Extras

Textos do Z.É.


Metalhemguagem

Metalhemguagem


(Escrito por Fernando Caruso, feito por Marcius Melhem, na Sétima Temporada)


Começa a cena, um sujeito sozinho no palco, datilografando numa máquina de escrever. Entra outro e começa a fazer perguntas idiotas.


 


Marcius – O que você está fazendo?


Caruso (olha pra ele longamente, e volta a escrever) – Estou escrevendo o texto da sua apresentação no Z.É.. Como você, de todos os convidados, é o mais chato e mais exigente, eu preciso escrever algo só para você. Do contrário, você fica mudando as suas falas e dizendo que o texto é ruim.


Marcius – Sei... E você acha que se você escrever que vou dizer que é bom?


Caruso (olha novamente e volta a escrever) – É uma esperança...


Marcius (olha em volta) – E onde a gente tá, então? Porque, obviamente, se você ainda está escrevendo a gente não pode estar em cena, já que a cena ainda não existe.


Caruso – A gente está dentro da minha cabeça.


Marcius (olha em volta) – Espaçoso aqui, hein?


Caruso (olha pra ele e volta pra máquina) – Eu preciso me concentrar nisso aqui. É bom que eu dê uma limpada no lugar antes de começar, senão eu não consigo ter idéia nenhuma.


Marcius – Sei... E na sua cabeça, você escreve numa máquina de escrever?


Caruso – Você não queria que eu me visualizasse escrevendo num computador, né? Só ia dificultar a cena...


Marcius – Imagina, quem sou eu pra dar pitaco... Só acho que isso diz muito sobre o potencial do seu cérebro, uma “máquina de escrever”... Aliás, outra coisa (apontando pro texto), eu nunca diria “pitaco”. “Pitaco” não é uma palavra que Marcius Melhem falaria. Fica falso. Vai chegar na hora, eu vou ter que mudar...


Caruso – Você quer parar de me pentelhar?


Marcius – Eu não posso. Eu sou um fruto da sua imaginação. Na sua cabeça, eu sou assim.


Caruso – Na vida real também.


Marcius – Isso não cabe a você decidir. Aliás, outra coisa: meta-linguagem. Eu não estou acostumado com meta-linguagem. Eu não vou decorar essa cena (porra) nem por um cacete (caralho). Eu estou acostumado com Zorra Total. Cenas simples, vaso na cabeça, água na cara, esse tipo de coisa. Esse texto tá muito filosófico.


Caruso – Ai, saco...


Marcius – E tem mais: Essa piadinha do Zorra, eu não vou gostar. Eu vou pedir pra tirar. EU não vou querer fazer.


Caruso – Como é que você sabe? Eu nem mostrei pra você ainda!


Marcius – Mas eu me conheço, eu não vou querer fazer.


Caruso – Mas como é que você conhece você, se você é fruto da minha imaginação?


Marcius – Iiih... Meta-linguagem...


Caruso – Ai, caralho! Me deixa eu escrever em paz!! Isso já é difícil o bastante sem você me atrapalhando!


Marcius – Calma, rapaz, calma! Fazê o seguinte: eu vou te ajudar! Pra você não ter que reescrever tudo depois que me mostrar, eu vou já dizendo as mudanças que você vai ter que fazer, aí você leva o texto pronto, que tal?


Caruso – Tá bom, mas é pra ajudar, hein?


Marcius – Claro, garotão, claro... Vamos lá: o que quê você tem em mente?


Caruso – Ok (estala os dedos e se prepara pra escrever. Nesse momento acende-se outro foco e os atores começam a fazer a cena à medida que Caruso escreve). Vamos lá. Um Banco, com uma atendente (entra Queiroga de atendente). A atendente diz: Bom dia senhor... (Queiroga esboça falar)


Marcius – A atendente vai ser o Queiroga?


Caruso – Não, o Adnet (sai Queiroga meio bolado, entra o Adnet de atendente e toma o seu lugar). A atendente diz: Bom dia senhor, em que posso ser útil?


Adnet – Boa tarde cavalheiro, posso ajudá-lo? (Marcius e Caruso olham pra ele e se olham)


Caruso – É foda: o Adnet nunca decora as falas direito... Agora eu preciso de um conflito. O Queiroga resolve assaltar o banco. (puxa uma arma)


Marcius – Por que o Queiroga?


Caruso – Porque ele tem mais cara de assaltante. (Queiroga olha, contrariado).


Marcius – Tá certo. Mas ficou faltando o Gregório. Ele faz o quê?


Caruso – Ah, o Gregório entra de velhinha, que sempre agrada... (entra Gregório fazendo uma velha decrépita). Daí começa uma confusão, e a velhinha fica com o dinheiro (atores encenam a medida que ele fala). Que tal?


Marcius – É... não ficou bom. Diria até que ficou... ruim. Porque que você não faz assim (a medida que o Marcius vai falando, apontando pro texto, os atores fazem): Queiroga faz a velhinha, o Gregório a atendente (“boa tarde sr?”) e o Adnet assalta?


Caruso – Queiroga faz a velinha? Não... Então o Adnet faz o cliente, o Queiroga faz a atendente e o Gregório assalta, de velinha.


Marcius – Já sei, já sei: o Adnet faz a atendente, de velhinha, o Queiroga faz o cliente, apertado pra ir no banheiro, e o Gregório assalta todo mundo.


Caruso – O Gregório assalta todo mundo? Já parou pra pensar como é que ia ser isso?


Gregório (sem a menor ênfase de assaltante) – Oi, gente, passa a grana? Hein? Por favor? Brigado...


Marcius – Tem razão. Então aqui... O Queiroga faz um ceguinho...


Caruso – O Adnet um professor de lamba-aeróbica...


Marcius – O Gregório um francês. Um francês que dança. Um francês que canta e dança.


Caruso – O Adnet derruba o Queiroga....


Marcius – Gregório imita um ornitorrinco (os atores começam a desistir de fazer a cena e começam a se entreolhar enquanto Maricus e Caruso continuam a ter idéias sem sentido)


Caruso – Queiroga imita a Xuxa.


Marcius –Adnet dá uma rebolada.


Caruso – Gregório dá um tapa na cara do Queiroga. (Gregório, de fato, sem ninguém esperar, dá o tapa. Queiroga faz gesto de “pô!” e reprovação. Todos se encaminham para ver, afinal o que está rolando)


Queiroga – Afinal, será que dá pra vocês se decidirem?


Adnet – É, eu já to ficando cansado.


Gregório – Vocês não gostaram da coisa do tapa? Por que que a gente não mantém a coisa do tapa?


Marcius – Acho melhor voltar pra idéia inicial.


Queiroga – Idéia inicial? Eu nem lembro mais qual era a idéia inicia!


Adnet – Eu vou ter que dançar, não?


Gregório – E o tapa? O tapa ficou? Vamos deixar o tapa...


Todos falam ao mesmo tempo.


Caruso – Chega! Acabou a minha paciência! Pro inferno com vocês! Essa semana não vai ter texto (puxa a folha da máquina para amassar)


Todos – Não!!!!!! (caruso amassa o papel e todos se amassam ao mesmo tempo)


Caruso – (olha pra trás e vê todos mortos no chão. Escreve na máquina de pé) Luz vai saindo em fade. B.O. Fim. (sai) Ah, pra casa do caralho com essa gente... 


LUZ VAI SAINDO EM FADE ATÉ O B.O.


FIM.

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