Extras

Textos do Z.É.


Teste Para o Municipal (Errou, morreu!)

Teste para o Municipal


(Escrito por Fernando Caruso, feito com Marcius Melhem na Nona Temporada, baseado em idéia dele. Boa parte do texto, aliás, foi alterada em cena por conta dos cacos do ator principal. Essa, no entanto, é versão original)

Atores:
Diretor - Fernando Caruso
B1 - Gregório Duvivier
B2 - Marcelo Adnet
B3 - Rafael Queiroga
Marcius - Marcius Melhem


Quatro bailarinos se alongam, muito sérios. São todos heterossexuais, nada de viadagens. Entra um quarto rapaz, com mochila e um papel na mão. Parece meio perdido.


 


Marcius – Opa, é aqui que é o teste?


B1 – É aqui sim.


Marcius – Ah. E o quê que vocês estão fazendo?


B2 – Alongando.


Marcius (confuso, olha para o papel e pra eles) – Pro... teste? (aponta o papel)


B3 – Exatamente. (Marcius faz uma pausa, observa eles e começa a se alongar também)


Marcius (sofrendo) – Vem cá, isso é realmente necessário pra entrar pro Banco do Brasil?


B1 – Pro Banco do Brasil eu não sei, mas no corpo de bale do Municipal, é.


Marcius – Corpo de bale...? Ah, gente, então eu acho que eu entrei na sala errada. Balé é coisa de vi... (todos olham pra ele. Se toca.) Coisa de vi.... na. Coisa divina, uma benção dos céus, uma dádiva santa dos deuses. Mas infelizmente o meu teste é prum salário de 4 mil reais.


B2 – O nosso é de 15.


Marcius – 15 mil??


B3  - 15 mil.


Marcius – Reais?


B1 – Reais.


Marcius – 15 mil reais??


Todos – Éééé.


Marcius (voltando a alongar) – Você tá alongando errado. Tem que relaxar a tíbia, pra deixar fluir o sangue pra cabeça. Tíbia, cabeça; tíbia, cabeça.


(todos “corrigem” seu alongamento. Entra o diretor, vestido com uma malha bichona.)


Diretor – Ok, gente, vamos parar de alongar? Eu preciso de um minutinho da atenção de vocês, aqui. Bem, pra deixar claro: nós só temos 1 vaga. São quinze mil reais mensais, mais plano de saúde e algumas viagens marcadas pelo Brasil. Alguém tem alguma dúvida?


Marcius – Tem que dar a bunda, não?


Diretor – Se você quiser, fica à vontade (os outros olham pro Marcius com malícia, como se ele tivesse acabado de “liberar”). Antes de começar o teste eu preciso fazer algumas perguntinhas pra saber com quem eu estou lidando. Vamos lá? (olha a cartilha) Aonde vocês estudaram dança?


B1 – Belo Horizonte.


B2 – Rio Grande do Sul.


B3 – Bahia.


Marcius – Belo Horizonte, Rio Grande do Sul e Bahia. Eu fiz meio que um tour pelas principais escolas de dança, pegando aí essa região noroeste do sul central do país. Mais pra esquerda.


Diretor – Qual a sua área de destaque?


B1 – Clássico.


B2 – Contemporâneo.


B3 – Dança de rua.


Marcius – Tudo. Me destaco em tudo. Mas se é pra especificar, a minha area é mais pra um clássico contemporâneo de dança de rua. Com um pouco de sapateado, também, que ninguém é de ferro. E Polca. Aos domingos.


Diretor – Qual seu movimento assinatura?


B1 – Pádê chá


B2 – Padedê.


B3 – Grand Jetê.


Marcius – Pulo Especial Número Cinco.


Diretor – Eu não conheço esse.


Marcius – É por que é só eu sei fazer. Ninguém mais. Os poucos que tentaram, morreram errando.


Diretor – Nossa. Você pode demonstrar pra gente?


Marcius – Eu não! Vai que eu erro? Além do mais, é um passo secreto. Não posso ter as pessoas por aí dando o Pulo Especial Número 5 pra entrar no ônibus. Pra desviar do cocô. De jeito nenhum.


Diretor – Ah, que pena então. Bem, agora eu preciso ver vocês em ação. É muito fácil ser enganado pelo currículum de qualquer um, mas o corpo não mente. Portanto eu quero que um de vocês prepare uma coreografia com alguns passos básicos para os coleguinhas fazerem e eu poder examinar o desempenho de vocês. Eu vou lá fora, tomar um café e já volto, num instante. (sai)


Marcius – Então vamos lá, gente, eu vou começar com o básico, e...


B1 – Peraí, por que é você quem vai criar a coreografia?


Marcius – Porque eu sou o único que estudou clássico contemporâneo de dança de rua no noroeste sul central do país. (num tom irritante de “deixa disso”) Não vamos discutir, não vamos discutir... Então vamos lá. Dança é uma coisa muito simples. Vocês não precisam ficar nervosos. Tô sentindo que você ta nervoso, ta até de cabelo em pé. Dança nada mais é do que o ato de esquecer uma parte do corpo. Você vai prum lado, e esquece seu braço do outro. (demonstra) Então eu vou fazer uma coreografia e vocês em seguida repetem.


(começa a fazer uma coreô escrotíssima, narrando seus movimentos “foi prum lado, e desceu, catou feijão, puxou chiclete”, etc. Os outros em seguida repetem e ele passa corrigindo a postura, encorajando-os “vamos lá, pula mais alto! Mentaliza os 15 mil reais!” e termina cumprimentando seus ‘alunos’. Volta o diretor, de cafezinho na mão.)


Diretor – Então vamos lá. Deixa eu ver essa coreografia de vocês. (todos dançam) Mas o que é isso? Que seqüência esdrúxula de movimentos é essa? Quem foi que preparou essa palhaçada toda?


Todos os Bailarinos – Foi ele! A coreografia é dele! Ele que mandou a gente fazer!


Diretor – É verdade isso? Foi você quem preparou a coreografia?


Marcius – Veja bem... Eu tentei. Mas eles não fizeram nada do que eu pedi! Eu só falei grand jeté, pádedê, padechá; grand jeté, pádedê, padechá! Mas eles são incapazes de memorizar um passo sequer!


Diretor – Francamente, vocês estão dispensados! Que perda completa do meu tempo! Pode sair todo mundo... Bem, me parece que sobrou só você.


Marcius – Fazer o quê, né?


Diretor – Está contratado! (saindo) Agora me conta aquele negócio do Pulo Especial Número 5, que eu fiquei intrigadíssimo...


 


Saem


Cai a luz.


 FIM
Para ver fotos dessa cena, acesse: Fotos> Temporadas Antigas> Nona Temporada

Voltar