Extras Textos do Z.É. |
Santo Oswaldo Escrito por Fernando Caruso e interpretado por Leandro Hassum, na sexta temporada do Z.É. (Teatro dos 4) Personagens: São Pedro – Marcelo Adnet São Jorge – Fernando Caruso São Judas – Rafael Queiroga Santo Expedito – Gregório Duviver Santo Oswaldo – Leandro Hassum Abre a cena, revela-se uma conferência de santos. São Pedro (pigarreia) – Irmãos, sê bem vindos. Vamos dar início a mais uma reunião católica de Santos aqui no céu. Antes de começar a ouvir vossos novos feitos e dádivas na terra dos homens, farei uma pequena chamada por mera formalidade. Eu, São Pedro, padroeiro dos homens e encarregado da portas dos céus, apresento-me a vossa frente e requisito a presença daquele que clamo perante a nós. São Jorge, apresenta-te? (nessa hora, entra Santo Oswaldo, sorrateiro pela coxia, carregando sua cadeirinha colada a bunda. A medida que cada santo se levanta pra se apresentar, ele chega mais perto. No último, ele vai se empurrando na cadeira a bundadas) São Jorge – Apresento-me. São Jorge, santo guerreiro, defensor dos mártires e fiel a Jesus, encontro-me presente. São Pedro – São Judas Tadeu, apresenta-te? São Judas Tadeu – Apresento-me. Eu, São Judas Tadeu, santo das causas impossíveis, encontro-me presente. São Pedro – Santo Expedito, apresenta-te? Santo Expedito – Apresento-me. Eu, Santo Expedito, santo das causas justas e urgentes, encontro-me presente. Oswaldo (tentando entrar no clima) – Eu, Oswaldo, morador do 502, em Olaria, tô aqui também (todos olham pra ele). Vai gente, não se acanha não, pode continuar, que tava bonito. São Pedro – Mas o que o senhor está fazendo aqui? Oswaldo – Eu quero participar da reunião, que pergunta. São Judas Tadeu – Mas pra isso o senhor tem que ser Santo. Oswaldo – E quem disse que eu não sou santo? São Pedro – E quem disse que o senhor é santo? O senhor não pode estar aqui sem ter sido chamado. Oswaldo – Mas é assim? Vocês não vão nem me entrevistar primeiro? São Judas Tadeu – E precisa? Está na cara que o senhor não é santo! Santo precisa jejuar! Oswaldo – Mas eu estou de jejum. Santo Expedito – Como é que o senhor pode estar de jejum com esse tamanho todo? Oswaldo – Uai, eu acabei de começar. Não como nada desde o café da manhã. Daí eu faço uma pausa pro almoço, e começo o jejum de novo! São Pedro – Pelo amor de nosso senhor, homem! Volta pra casa! (todos fazem menção de levá-lo) Oswaldo – Peraí, peraí! Deixa eu provar pra vocês que eu tenho potencial! São Jorge – Mas que potencial? Você nem de sandálias está! Oswaldo – Meu amigo, tu já deu um pulo na Mr. Cat pra ver quanto tá uma sandália? Não há dízimo que compre um treco daquele! Mas o calçado não importa, o calçado é só 15%, vocês nem repararam nos outros 75! Olha só! Eu tô de bata! São Pedro – Aliás, essa é outra pergunta. Porque o senhor está de bata? Oswaldo – Muito simples: porque aréja. Santo Expedito – Mas isso não é motivo o suficiente para usar bata! Oswaldo – Ah, meu amigo, porque você não mora em Olaria e não sabe como a laje esquenta no verão. É que nem andar em brasa. (Santo Expedito, São Pedro e São Jorge se entreolham ligeiramente impressionados) São Judas – Ta bom, vá lá. O senhor usa bata e anda sobre brasa quente. Mas isso ainda não o eleva a santidade. Precisamos de mais provas. Um milagre pro exemplo! Oswaldo (pensando no que fazer) – Um milagre? Mm... Um milagre... Tá bom! Junta todo mundo aqui! (puxa uma moeda) De olho na moedinha! Presta atenção, Expedito, que você é meio lento, hein? Espeto! Posso te chamar de espeto, né? Então espeto, olha a moedinha, e 1, e 2 e PARANTCHAN-TCHAN-TCHANS! (isola a moedinha pra trás) Cadê a moedinha? Cadê? A moedinha sumiu! Santo Expedito – Caraca, como é que ele fez isso? A moedinha sumiu! São Pedro (voltando com a moeda na mão) – Você quer dizer essa moedinha aqui? Oswaldo – (PAUSA) Milagre! Milagre!!! São Judas – Pelo amor de Deus homem isso está longe de se constituir em um milagre! Oswaldo – Como é que o senhor sabe? O senhor não faz milagre nunca! “Santo das Causas Impossíveis”! Aí até eu! Qual foi a última vez que o senhor resolveu uma causa? (Todos olham desconfiados para São Judas) São Pedro – É mesmo... Qual foi a última vez que o senhor atendeu a uma prece? São Judas – Bem... Eu... é que... São Pedro – O senhor já atendeu ALGUMA prece nos últimos mil anos? São Judas – Mas como é que eu posso?? Só me pedem coisas impossíveis!!! Oswaldo – Ah lá! Num falei! Faz nada!! São Judas – E você? Faz o quê?? Oswaldo – (Pausa) Eu sei dançar. São Judas – Como?!? (Oswaldo começa a dançar. Os outros santos ficam impressionados com sua destreza. Chegam até a “cair no ritmo” levemente. Quando termina, é aplaudido). São Pedro – Me convenceu ta contratado. São Judas – Como assim tá contratado? Não se pode santificar uma pessoa porque ela “dança bem”!! Santo Expedito – Ah, você só ta falando isso porque você é mó perna de pau! São Judas – E o nome dele?? Ele não pode se chamar Santo Oswaldo! Oswaldo é um nome ridículo pra Santo! Oswaldo – Antes Oswaldo do que Judas! Todos – Uuuiiiiiii!!!! Oswaldo – Pelo menos eu não passei nosso senhor pra trás. Todos – Boa, boa! Boa... São Judas – Eu já falei que aquele foi outro Judas! Eu não tenho nada a ver com ele! São Pedro – Claro, claro... Olha, Oswaldo não liga pra ele não, ele é assim meio estouradinho mesmo, viu? Santo Expedito – Cara, ainda não entendi como ele aquele lance da moedinha? São Jorge – E a nomeação? Como fica a nomeação? São Pedro – Ah, sim! Eu te nomeio Santo Oswaldo, santo remédio para aqueles de vida dura, pregador do riso e do jeitinho brasileiro. E então, aonde vamos comemorar? Santo Oswaldo – Onde mais? F I M. |