Extras Textos do Z.É. |
Instrutor de Banheiros Quatro rapazes enfileirados mijando de frente para a platéia. Os urinóis cobrem a visão de seus membros. Entra um quinto, com ar de autoridade, pagando esporro pra todo mundo. Nas suas costas está impressa a palavra “Instrutor”, em letras garrafais. Intrutor – Não, não, não, não, não! O que vocês pensam que estão fazendo?! Todos – Mijando... Intrutor – Estão fazendo tudo errado! Aluno 1 – Ah, vai também não pode ser tão difícil assim.... É só mijar! Instrutor – Só mijar? Só mijar!? Deixa eu explicar uma coisa pra vocês, garotos: mijar é uma arte! “Só mijar” é o que fazem os animais! Agora, “mijar”, é uma benção divina que nos coloca acima do objeto mijado. Deus nos deu uma ferramenta para nos diferenciar das mulheres, nos distanciando daquilo sobre o que estamos mijando. E vocês precisam saber usar essa ferramenta. Eduardo – Nossa que bonito... Instrutor – Calaboca! Regra número 1 do mictório: terminantemente proibida a utilização de vocabulário afeminado em território sanitário. Palavras como “bonito”, “simpático”, “cintilante”, “farme” e “amoedo” estão completamente banidas do banheiro. Ao invés, as conversas devem ser reduzidas a palavras de apenas três sílabas no máximo, como “beleza”, “valeu”, “eaí”, “show”, “garpê” e “lermú”. Mais que isso e vocês correm risco de soar como viados, que nem nosso amigo aqui. Entendido? Todos (respondendo normalmente) – Sim, sim... Intrutor – Eu não ouvi! Todos - Show! Beleza! Valeu! Garpê lermú! Instrutor – Vocês acham que sabem mijar... Há! Vocês não sabem nada! Se não fosse eu vocês ainda estariam até hoje se escondendo na cabine fingindo que estavam cagando. Vamos recapitular. O que aprendemos na aula passada? Hã? Vamos começar por você, Eduardo. Eduardo (baixinho) – A não pg o gl... Instrutor – Eu não ouvi!! Eduardo – A não comer o gelo do urinol... Instrutor – Muito bem, e o que mais? Eduardo – Não comer o gelo do urinol do coleguinha... Instrutor – Muito bem. E o que mais? Eduardo – Não sentar no Urinol. O Urinol é só pra fazer xixi. Em pé. Sem comer o gelo. Intrutor – Muito bem. E os demais, o que aprenderam? Todos – Que o Eduardo é um idiota... Intrutor – Exatamente. Então vamos voltar aonde paramos. Assumam posição de mijo. (todos se colocam de frente ao urinol, com as mãos nos ditos cujos) Agora protejam seu membro do campo de visão alheio (todos fazem) Isso, agora teste de resistência. Coçando o rosto sem as mãos (instrutor passa com uma pena no rosto dos alunos em pontos diferentes. Cada um coça de um jeito sem usar as mãos – contraindo o nariz, esfregando a bochecha no ombro, etc. o último não agüenta e coça o nariz com as mãos) ERRADO! Se essa fosse uma situação real, em banheiro real, você voltaria pra mesa infectado com a sua própria genitália. Ia ficar com nariz de piroca! Nariz de piroca não sai com sabão! Próxima etapa, ponto de visão. Ao adentrar num banheiro masculino com mais de duas pessoas, é necessário estabelecer um ponto de visão rígido, para demonstrar o seu não-interesse na jeba alheia. Ponto fixo, já! (todos olham para um ponto fixo, com muita compenetração) Muito bem. Agora eu preciso que vocês escolham outros dois pontos fixos descomprometidos, para não bandeirar que vocês estão tão preocupados em evitar a jeba alheia, principalmente em caso de mijada longa. PONTO FIXO MIJADA LONGA UM! (todos fazem) PONTO FIXO MIJADA LONGA DOIS! (todos fazem) PONTO FIXO MIJADA LONGA TRÊS! (todos fazem) UM! DOIS! UM! TRÊS! DOIS-TRÊS! DOIS-UM! UM-TRÊS! Muito bem. A combinação desses três pontos serão muito úteis em chopadas na universidade e carnavais na Bahia, quando as mijadas assumem duração de até três minutos por ida. E agora, descarga. (Todos fazem gesto de dar a descarga com as mãos) Intrutor – Nãããão! Vocês enlouqueceram?? Nunca dêem a descarga num mictório! Isso faria com que vocês pegassem em pirú por tabela! Se for extremamente necessário, usem os pés. (todos se equilibram com um pé e apertam a descarga com o outro. Eduardo está descalço) Intrutor – Eduardo, o que você está fazendo descalço? Eduado – Não pode, né? Instrutor – Não, Eduardo, não... Muito bem, por hoje chega, vocês estão liberados. (estende a mão para um dos alunos apertar. O aluno estende de volta, leva um tapa na cara) Intrutor (irado) - Nunca, nunca, aperte a mão de outro homem no banheiro. A grande maioria dos homens não lavam a mão quando usam o banheiro, e aí, vocês já sabem... Todos – “Pirú por tabela....” Intrutor – Muito bem, vocês estão aprendendo. Na aula que vêm, vamos aprender a acertar a bolinha de naftalina no buraco da louça. Até amanhã. Todos saem, por último passa Eduardo, com alguma coisa na boca. Instrutor – Eduardo. Eduardo – Hm? Instrutor – Cospe o gelo de volta no mictório. Eduardo, contrariado, o faz. O instrutor fica sozinho em cena, olhando com ar de reprovação o seu aluno sair. Cai a luz até o B.O. |