Porquê?

parte I - as pré-eliminares

O Z.É. de nada seria sem o Teatro Tablado.

O Tablado, um pequeno teatro de 200 lugares ali na Lagoa, oferece cursos de improvisação de diferentes professores para alunos das mais variadas idades (dos 11 aos 99). Lá entrei na tenra idade dos 12 anos, antes mesmo da minha primeira menstruação (que aliás não veio até hoje e meu ginecologista, não sei por quê, não responde mais os meus telefonemas desde minha primeira consulta) e de lá não saí até o presente momento, em que escrevo estas linhas (27 de agosto de 2040).
Freqüentei o curso durante 11 anos ininterruptos (alguns meses pagando, inclusive) e tive a oportunidade de conhecer e ter aulas maravilhosas, com professores maravilhosos. As aulas, sempre de improvisação, proporcionavam momentos que pra mim são memoráveis até hoje. E o mesmo serve pra qualquer um que tenha feito aula no Tablado ou em qualquer outro bom curso de teatro (creio eu). Às vezes, criávamos cenas inesquecíveis através da improvisação, que eram presenciadas apenas pelos poucos sortudos ali presentes – quase como os afortunados que avistam um cometa: intenso, mas rápido e efêmero (nossa, que chique... o rapaz escreve bem!). Cenas que se perdiam no momento seguinte em que eram apresentadas, pois eram fruto único de um momento de espontaneidade e que se fossem descritas ou escritas para serem ensaiadas e revividas não chegariam nem a 10% do seu rendimento original.
No décimo ano de Tablado, comecei a perceber que o surgimento desses momentos milagrosos estavam mais relacionados ao empenho dos alunos do que a um distúrbio cósmico da natureza. Pude notar, ao fazer com temporão uma aula para iniciantes durante um ano inteiro, que quando um grupo abocanhava um exercício com unhas e dentes, por mais simples e “para iniciantes” que a proposta pudesse parecer, coisas legais surgiam dali. Então logo pensei “Mmm... Acho que deixei a porta do carro aberta...”. E em seguida “Mmm... se formássemos um grupo de atores mais experientes, ou simplesmente empenhados e com química entre si, poderíamos manipular a criação desses ‘cometas’ e fazer uma aula com 100% de aproveitamento – o que poderia ser apresentável para uma platéia que não faz idéia do que ela está perdendo”. Claro que eu não pensei com essa clareza e articulação toda de uma vez só (é bem provável que ao invés da palavra cometa eu tenha usado alguma outra de teor mais acadêmico), mas a coisa surgiu ali e ficou fermentando. Eu queria muito levar para o público esse lado do teatro que pra mim e pra tantos outros era tão divertido. E queria dar uma amostra das diferentes aulas (todas elas muito interessantes) de cada professor que eu havia experimentado. Então, sem saber o que fazer, abordei meu professor e guru, mestre supremo e ídolo maior em tudo na minha vida, Bernardo Jablonski. E, buscando seu apoio para minha idéia ainda embrionária, perguntei:
“Bernardo, seu eu fizesse um espetáculo que fosse tipo uma aula de teatro, só que aberta ao público, você seria meu convidado?”
E ele, por estarmos no meio de um ensaio e não entender lhufas do que eu falei, retrucou com a sapiência de um monge careca:
“Escreve um projeto e depois a gente conversa”. E foi exatamente o que eu fiz. Talvez isso hoje sirva de lição para ele. Talvez ele nem se lembre. Talvez ele esteja cagando pra tudo isso. Mas a questão é que, numa noite de insônia, levantei às 3 da manhã e escrevi o tal projeto. Mas como eu nunca tinha escrito um projeto na vida, achei que era uma loucura e engavetei-o para todo o sempre
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